O fluxo criativo e as práticas em dança


Caravanas Imaginárias acontece entre as práticas em dança e o fluxo criativo da composição. As práticas em dança são trazidas na memória corporal de cada intérprete-criador. O grupo traz na bagagem corporal as tradições de ensino e transmissão de conhecimento das danças baseadas em um repertório fixo de movimentos: observar o professor, reproduzir gestos e passos, combinar os movimentos com os ritmos e melodias de cada modalidade de dança.  

 Ação coreográfica para a montagem com base no Tribal Brasil: movimentos híbridos do maracatu 


Grande parte do ensino em práticas corporais é feito assim: aprende-se os passos de uma dança para dominar seu lexo e assim se reconhecer como dançarino. Neste caso, a imitação é o principal canal de aprendizado. O mesmo acontece nas práticas corporais das artes marciais, da capoeira, da yoga: o discípulo reproduz o que o mestre apresenta. Em muitas tradições de dança, somente quando  o iniciante domina o repertório proposto é que ele pode colocar em prática suas ideias criativas.

A abordagem da Dança Contemporânea descontroi o esquema de repetição de movimentos para aquisição de conhecimento em dança. Nesta proposta, o repertório de um grupo que performa junto é construído coletivamente a partir de experimentações com o corpo, com o espaço, com o tempo, com a gravidade, com a interatividade. Laurence Louppe propõe uma Dança Contemporânea que permite a “elaboração expressiva directamente estética”,  (2012, p. 246),  e  é esta a direção para o Caravanas Imaginárias, mesmo que ainda estejamos lidando com momentos de repetição de passos e gestos, já que a corporalidade coletiva do grupo se fortalece com isso. 

Caminhos expressivos: Caravanas trilhando as ações coregráficas

A proposta metodólogica do Caravanas Imaginárias foi criada para ir além do modelo tradicional de repetições de movimentos. A proposta, no entanto, exige que os praticantes já tragam em sua corporalidade o domínio da matriz pélvica - conjunto de movimentos básicos utilizados na Dança do Ventre, no Tribal, no Tribal Fusion e no American Tribal Style (ATS). 

O círculo, a roda e os giros estão sempre presentes nas ações

Caravanas é, portanto, um Laboratório de Criação em Dança para quem já passou pelo momento de adquirir um repertório de movimentos e agora quer utilizá-lo de forma criativa, híbrida e interdisciplinar. Não é abandonar a técnica, nem o repertório corporal adquirido. É ir além dele, transformá-lo em um processo de devir do corpo. Em contato com a música orgânica e eletrônica e com elementos do teatro, os intérpretes-criadores são desafiados a compor em tempo real. 

Minhas reflexões na dissertação do Mestrado traduzem os motivos que me levaram a pensar na proposta metodológica do Caravanas: 

" Ao invés de me centrar na tecnicidade da dança — aperfeiçoar uso da matriz pélvica com seus movimentos específicos de quadril e da pélvis — procurei levar o grupo a mergulhar em um processo pelo qual a sensações e afetos que integram a corporalidade inspirassem temáticas compartilhadas, para que pudéssemos fazer escolhas composicionais coletivas apropriando-nos dos movimentos da matriz pélvica de maneira expressiva." (PIFFER, 2018)

Por meio da AÇÃO COREOGRÁFICA, uma fórmula de criação em dança, os integrantes do grupo foram testando maneiras de criar coletivamente garantindo momentos de improviso com marcações definidas anteriormente. A ação coreográfica nasce de uma intenção, uma necessidade estética, seja ela um sentimento ou efeito de cena como "ocupar o espaço cênico com movimentos rápidos". A ação coreográfica é composta por quatro fatores, os DRIM: Deslocamento, Ritmo, Interação e Movimento.

Ações coreográficas juntas formam um roteiro que pode ser efêmero, apenas para o fluxo criativo de um encontro laboratorial, ou pode ganhar registro composicional e se tornar uma montagem, como a que o Caravanas Imaginárias preparou para ser apresentada no dia 09 de novembro de 2018.

Referências:

LOUPPE, Laurence. Poética da Dança Contemporânea. Tradução de Rute Costa. Lisboa: Orfeu Negro, 2012.

PIFFER, Jamila S. Gontijo. POÉTICAS DE UM VENTRE ANTROPOFÁGICO: UM OLHAR SIMBÓLICO SOBRE A DANÇA TRIBAL FUSION. Dissertação de Mestrado, Unb: 2018.


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